quarta-feira, 10 de julho de 2013


Ainda era jovem. Em plenos 23 anos acreditava que já poderia se orgulhar do título de Doutora que recebera do Bacharelado em Direito. A soberba escorria pelos lábios e pelo nariz que de tão empinado poderíamos ver o quão belo e delicado era o seu longilíneo pescoço branco. Tão branco que conseguíamos ver as veias esverdeadas ao lado esquerdo. O lado direito andava sempre coberto com seus cabelos aloirados e escorridos. Sempre impecáveis no brilho, já que estava em dia com o Moroccanoil que eventualmente trazia do exterior. A beleza era notável. Não se pode negar que o corpo magro merecia um pouco mais de carne, mas ainda assim fez questão de pagar por uma lipoaspiração para retirar os 800g de gordura localizada que a tirava o sono. Por tudo isso, recebia inúmeros elogios diariamente e o que o mais gostava de ouvir certamente era: “Puxou ao pai.”

Sempre muito estudiosa, aos 18 comprei seu primeiro carro por ter ingressado na faculdade. Nunca houve qualquer observação em relação ao seu desempenho acadêmico. Também nunca deixei nada faltar a ela. Estudou na melhor escola da cidade, morou fora do país aos 13 anos e quando voltou trouxe uma mala de presentes para ela e outra para família. Sinto orgulho da minha filha. Ela sabe as músicas do momento – recentemente me apresentou o hit da Anita – está sempre antenada nos avanços tecnológicos (é ela quem escolhe os aparelhos celulares da casa e diz quando devemos trocá-los). Alguns poderiam dizer que ela é consumista, mas não é. Desde os 5 anos ela é independente nas escolhas das roupas dela, ela sabe o que quer. Sempre foi uma garota decidida.

Pois bem, agora que já a apresentei, quero dizer o que me motiva desabafar com vocês. Recentemente abri uma conta no tal Facebook e me deparei com a “página lotada” da minha filha. O que seria essa página lotada? Percebi que isso significava que ela tinha tantos amigos que atingiu a capacidade máxima suportada pela tal rede social. Então, nem eu podia ser amigo dela? Entendi que era necessário que ela abrisse uma nova página. Me causou surpresa saber que ela era tão popular! Como pode? O que ela tinha de tão maravilhoso que fazia daquela jovem garota tão admirada e cheia de seguidores? Fiz um rápido tour em sua página para tentar encontrar algo que me surpreendesse. Encontrei fotos dos seus pés, das mãos, do nosso cachorro, das inúmeras viagens que fez ao exterior (quase todas sem paisagens), de drinks, de sorrisos e mais sorrisos, dos olhos no retrovisor do carro... Diante deste cenário, não pude evitar em por minha velha cachola para trabalhar: o que a faz tão popular? Pior: o que a faz ser mais popular do que eu?

Sou médico há mais de 30 anos. Muitos pacientes já passaram pela minha mesa de cirurgia. Alguns ainda estão comigo. Apesar de serem pessoas interessantes, nunca passou pela minha cabeça que eu poderia compartilhar a minha vida particular – quiçá íntima – com eles. Na realidade, agora que sei que o tal Facebook me permite isso, percebi que não tenho a menor vontade de fazer. Não me sinto nadinha a vontade de adicionar também o meu vizinho chato do 506 que enche a piscina do condomínio nos fins de semana. Por que iria mostrar para ele que passei minhas férias numa viagem romântica com minha esposa? Não faz o menor sentido. Por que iria querer que meus pacientes me vissem de colar havaiano, sunga e cheio de birita? Isso não compromete minha competência, mas as aparências devem ser preservadas.

E era sobre as aparências que eu queria falar. Confesso que sei pouco da minha filha a não ser as aparências. Talvez, eu não saiba nada. Talvez ela só seja isso: aparência. E o pior: só queira isso. Mas ainda pior que isso pode ser a minha constatação. Se minha querida filha só quer aparências e ela tem inúmeros seguidores... Todos só querem aparência?

Chegamos na era da “Mulher de César”. Mais importante do que ser é parecer que é! Talvez pior: mais importante do que ser é ter! (Mas esse já é tema para outra discussão). Todo mundo parece ser feliz, rico, de bem com a vida, pleno. Todo mundo também parece que é inteligente, postando suas opiniões construídas (construída é eufemismo, a palavra certa é empurrada) pela mídia, copiando idéias alheias sem qualquer processo autoral ou reflexivo naquilo que é lançado. Mas como inteligente? Inteligência é algo nada relacionado com a aparência (alguns poderiam dizer que é inversamente proporcional). Foi então que percebi o quanto acreditei na inteligência superficial da minha querida, muito querida filha. E ela não tem culpa de nada...

Com muita tristeza, reconheço que criei mais um avatar perfeito para a engrenagem do sistema. Eu que sempre quis diferente... Eu, que não enxerguei em mim aquilo que não tolerava no outro. Me permitir ser ludibriado pela minha própria filha. Cedi aos encantos da sua aparência e esqueci de construir o seu “eu”. Eu fui e continuo sendo a referencia de alienação que minha filha, produto do meio familiar, se inspira.   

Recomeçando...

Após um longo período sem postagens, sinto-me completamente enrijecida no exercício da  escrita.  Aliás,  cabe  narrar  que  a  frase  anterior  foi  desfeita  umas  15  vezes  antes  de tomar este corpo. Escrever é como malhar o cérebro... E estou retomando meu treino. Cabe uma justificativa para mim? É para eu justificar para mim mesma. Pois  bem,  um  ano  de  grandes  mudanças,  gigantescas  mudanças  que  serviriam  de belíssimas inspirações para crônicas, poemas e até mesmo expor minhas opiniões (como agora faço) que guardo na lembrança por um deslize egoísta. Espero  que  essa  fase  tenha  passado  que  a  difícil  tarefa  de  recomeçar  seja  cumprida efetivamente.  Lembrei-me  de  uma  frase  do  Mário  Quintana:  “Nada  jamais  continua. Tudo vai recomeçar!”

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Atitude Inovadora – a transformação da cultura para manutenção da competitividade



Após ouvir do Jorge Gerdau e o prof. Charles Edquist no Seminário Internacional sobre Pequenos Negócios (19/04/2012 – São Paulo), cujo assunto era Inovação, que o melhor investimento que se faz é em recursos humanos, reforçou ainda mais o sentimento de que a área de RH é o braço direito da estratégia empresarial. Não há como trabalhar em separado. A discussão girava em torno da competitividade, na qual a empresa apenas se afasta da “morte” e permanece competitiva se incorporar a atitude inovadora. Para tanto ela deve estimular a criação de um ambiente favorável à inovação. O que isso significa? Significa que a empresa deve estimular seus colaboradores não só em pensar a inovação, mas trabalhar seus processos para implementá-la. A empresa deve despertar uma cultura favorável ao desenvolvimento da competência da inovação - sem entrar no mérito das discussões do prof. Hofstede (2003). A cultura a qual se refere deveria ser, preferencialmente nacional, mas as empresas podem estimular sua mudança. Como fazer isso? Através da atuação estratégica da GP! O próprio Dr. Gerdau apresentou soluções de GP que estimulam a atitude inovadora do colaborador:


• Reconhecimento anual das melhores idéias: premiação dos colaboradores que propõem as melhores inovações (o “peão” do chão de fábrica deve se transformar em cam”peão”)

• Intercâmbio das melhores práticas;

• Gestão do Conhecimento

O que faz o grande empresário investir milhões em pessoas ao invés de investir num imóvel? É justamente a capacidade que as pessoas têm de se renovarem! E essa renovação, reconstrução, reinvenção só é possível com o estímulo a inovação. Por isso o prof. Charles Edquist sugere que a segunda atividade necessária para uma boa implantação de uma Política de Inovação é o investimento nas competências, na aquisição de conhecimentos (capacitações) e desenvolvimento de comportamentos alinhados aos resultados da empresa (a primeira atividade seria o investimento em P&D). Porém, pouco resolve investir em capacitação para o corpo funcional se a organização possui processos desfavoráveis às mudanças, de encontro à inovação.

O desenvolvimento de um ambiente favorável somente é possível com o reforço das idéias inovadoras (como as soluções apresentadas pelo Dr. Gerdau). Apenas assim estimula-se a transformação da cultura organizacional, social, nacional. Apenas com a incorporação da atitude inovadora as organizações permanecem competitivas. Percebe-se que, entre a estratégia de estímulo à inovação e a aquisição da atitude inovadora existe um intervalo que deve ser alinhado também aos resultados: é justamente neste intervalo que a GP deve atuar; com coerência aos valores, alinhado às estratégias e com foco nos resultados.



REFERENCIAS:

SEMINÁRIO INTERNACIONAL SOBRE PEQUENOS NEGÓCIOS – Promovido pelo SEBRAE, de 18 a 20 de abril de 2012 – São Paulo/SP.

HOFSTEDE, G. Culturas e Organizações. Silabo, 2003

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O Planejamento Sucessório


Antes de iniciar a discussão sobre a importância de se planejar a sucessão empresarial, destaca-se a conceituação das gerações encontradas nas organizações: Y, X e Baby boomers. O professor Joel Dutra ensina que não existem gerações, mas sim alterações de realidades que forçam as pessoas à adaptação. Desta forma, não significa que exista uma geração Y que possuam características de instabilidade, por exemplo, mas que o mundo exige pessoas com este perfil. Isso significa que não apenas os jovens estão mais instáveis, mas também os mais velhos estão adquirindo essa característica para a sua manutenção no mercado. Um dos exemplos disso é que a tempos atrás, as pessoas encerravam seu ciclo de carreira na organização com a aposentadoria, por volta dos 50 ou 60 anos. Atualmente as pessoas com 40 anos (teoricamente da geração X) já pensam em mudar de carreira, mesmo estando num emprego fixo, a fim garantir melhor satisfação pessoal (característica da tida geração Y). Neste contexto, o objetivo do professor Joel é instigar o aprendizado contínuo: “aprendam com os jovens do mercado, pois eles traduzem com mais facilidade as tendências do futuro”. Dessa forma, as organizações tendem a se adaptar aos jovens.
A relação do trabalho com a tecnologia está cada vez mais estreita. Atualmente convivemos com conceitos como: home office e share services (centros de serviços compartilhados). Sendo assim, já estamos observando uma mudança na forma de distribuição dos trabalhos. O turn over deve se intensificar. A gestão de pessoas deverá ser mais sofisticada. As lideranças deverão estar preparadas para a adaptação à realidade e a criação de políticas e diretrizes estratégicas para o alcance de resultados. Este é o grande desafio: preparar as lideranças.
Imprescindível para o desenvolvimento de líderes é a concepção do conceito de competências não apenas como capacidade, mas como o potencial de mobilidade dessa capacidade para resultados. A forma utilizada pelas organizações para medir essas competência é através das complexidades, ou seja, a medida que as pessoas realizam atividades mais complexas elas estão se desenvolvendo. Entretanto, as pessoas fazem isso naturalmente! Isso significa que, a medida que a pessoa envelhecem elas realizam atividades mais complexas. As pessoas sempre buscam a complexidade na vida pessoal e profissional. O professor Joel explica que as pessoas agregam mais complexidade ás atividades quando elas possuem um maior nível de abstração.
O nível de abstração está relacionado à profundidade intelectual da pessoa. Isso não significa apenas conhecimentos, mas também experiência. Uma pessoa com nível de abstração mais elevado consegue ter uma visão institucional holística, é capaz de planejar estrategicamente, desenhar possibilidades de atuação e prever conseqüências. Todas essas características são bem vidas para as organizações.
As organizações estruturam as suas carreiras com base nas atribuições e responsabilidades de mesma natureza. Sendo assim, para atividades de natureza financeira existem: técnico, analistas, supervisores, gerentes, diretores e superintendentes financeiros. Essa seqüência ilustra uma carreira na área financeira. Entretanto, é importante conceber a mudança do nível técnico para o nível gerencial como uma mudança de trajetória de carreira. Quando um médico decide se tornar administrador ele está realizando uma alteração na sua trajetória de carreira. Neste exemplo fica fácil compreender a mudança na carreira. Porém no caso do analista financeiro se tornar supervisor financeiro essa mudança não é concebida como uma mudança de trajetória de carreira, mas sim o fluxo natural da carreira. Esta é uma concepção errônea.
Quando um técnico assume uma posição gerencial ele lidará com algo extremamente novo e que ele não está preparado: a arena política. Ser líder é ser político. A pessoa que assume o cargo de liderança, em qualquer área, precisa de muito mais competências de liderança do que de conhecimento da área. Geralmente quando uma pessoa perde a função de liderança e assume um cargo técnico ela continua exercendo as funções da arena política. Compete ao planejamento sucessório se basear no desenvolvimento das competências gerenciais para a formação dos seus sucessores.
Para a implantação do plano de sucessão, a alta cúpula deve disseminar e reforçar alguns valores como transparência e democracia. Entretanto, um dos valores que deve ser mais estimulado é a formação de lideranças. Os líderes devem ser reconhecidos pela sua capacidade formar novos líderes

Gestão de Carreira



Compreendendo a carreira

Antes de explorar o tema da gestão de carreira, faz-se imprescindível conceituar o nosso objeto de estudo. Classicamente, entende-se a carreira como “uma seqüência de posições ocupadas e de trabalhos realizados durante a vida de uma pessoa” (LONDON e STUMPF, 1982). Porém, já estamos ampliando essa visão, observando a carreira como a sequencia não apenas de posições de trabalhos, mas de percepções individuais, atitudes e comportamentos, reconhecimento este desenvolvimento como requisito para a atuação diferenciada do profissional. Desta forma, carreira implica em desenvolvimento, ou seja, a capacidade para assumir atribuições e responsabilidades em níveis crescentes de complexidade. Entretanto, esse aumento de complexidade não deve ter como conseqüência o aumento salarial, pois o ser humano eleva as complexidades das tarefas naturalmente. Desta forma, caso as organizações atrelem o aumento salarial ao aumento das complexidades das tarefas, elas devem elevar os salários dos seus colaboradores com uma freqüência insustentável. Entende-se por complexidade como um conjunto de características objetivas de uma situação, as quais estão em processo continuo de transformação (LE BOTERF, 2003).
As organizações podem estruturas as carreiras dos seus colaboradores em diferentes formas. A figura abaixo ilustra a estrutura de carreira em linha:

A estrutura em linha considera a evolução do colaborador apenas em sua estrutura vertical. Cada vez mais a estrutura da carreira em linha é menos utilizada nas organizações, vez que a progressão na carreira pode ocorrer também no eixo horizontal (mesmo que não implique em melhoria salarial). Essa situação pode ser exemplificada da seguinte forma: um técnico financeiro é transferido para atuar como técnico na auditoria interna. Apesar de não haver um acréscimo salarial, o colaborador se identifica mais com as atividades da auditoria, agregando maior satisfação e motivação na realização das atividades. Sendo assim, considera-se que houve uma progressão de carreira. Essa estrutura em rede permite o job rotation, estratégia muito comum nas organizações contemporâneas.
Além dessas duas estruturas, identifica-se, em casos específicos, a estrutura de carreira em Y, na qual o indivíduo pode seguir o “braço gerencial”, seguindo o caminho da liderança de equipes, como pode seguir o “braço técnico” ao se tornar um especialista essencial para a organização. A definição do caminho dependerá do perfil do colaborador, destacando-se que em ambas opções a remuneração é equiparada.
Independentemente da estrutura de carreira que a instituição adote, uma das questões que emergem é: de que forma ocorre a evolução da carreira? Como a instituição ou o indivíduo pode galgar posições mais satisfatórias? Como ocorre a migração de um nível para o outro? Todas essas indagações estão relacionadas com a utilização de sistemas de avaliação e mensuração de indicadores institucionais que legitimam a progressão na carreira. 


Sistemas de Avaliação para progressão na carreira

Para o profissional, a progressão na carreira implica não apenas num acréscimo salarial, mas o reconhecimento institucional de responsabilidades e a agregação de poder em determinada área. Os sistemas de avaliação são utilizados para mensurar o grau de desenvolvimento do colaborador a fim de julgá-lo apto ou não para a progressão na carreira. Desta forma, acreditou-se que os critérios adotados para esta mensuração deveriam ser objetivos, claros e, principalmente, seu alcance dependesse majoritariamente do avaliado. O quadro abaixo ilustra alguns dos principais sistemas utilizados pelo setor público para avaliar seus servidores:

Foco
Base
Centrado no trabalho executado
Esforço
Centrado no conhecimento
Provas
Centrado na capacitação
Títulos
Centrado no tempo de empresa
Tempo





Esses são modelos centrados na objetividade, cuja interferência do superior imediato foi minimizada ou até mesmo eliminada. Entretanto estes modelos não obtiveram muito êxito devido às injustiças genuínas do próprio modelo, por exemplo: nem sempre aquele que obtém melhor pontuação na prova agregou resultados à organização. Sendo assim, adotou-se o modelo de competências, somando-se a subjetividade aos critérios objetivos.
Em geral, as avaliações de competência possuem quatro focos: aferição de potencial, análise comportamental, desenvolvimento profissional e realização de metas e resultados. A tabela a seguir discrimina os objetivos de cada um destes focos:
Foco
Objetivos e características
Aplicação
Aferição de potencial
Predizer a adequação futura do profissional a determinada situação de trabalho, como em posições hierárquicas superiores.
Subsidiar movimentações, geralmente gerenciais.

Instrumentos de análise de potencial

Análise comportamental
Orientar comportamentos observáveis do profissional de modo a alinhá‐lo a valores, missão e princípios de atuação.
Promover autoconhecimento e estimular a adoção de comportamentos críticos para a organização.
Avaliação pelo gestor imediato

Avaliação por múltiplas fontes
Comitê
Desenvolvimento profissional
Observar o grau de desenvolvimento e maturidade do profissional.
Subsidiar decisões em carreira, remuneração fixa e desenvolvimento.
Nortear como os objetivos devem ser perseguidos para a construção do futuro no presente.
Predomina como avaliação individual
Realização de metas e resultados
Orientar o esforço dos profissionais para metas e objetivos da organização. Subsidiar remuneração variável.
Nortear para os objetivos a serem perseguidos, visando a construção do presente.
Predomina como avaliação coletiva.
Aferir por indicadores



Realizar a avaliação nestes quatro focos agrega mais fidedignidade ao processo de avaliação meritocrática. Cabe a organização valorar cada um destes focos de acordo com seus objetivos estratégicos, afinal, a definição dos indicadores que comporão o sistema de avaliação é baseada no Balance Score Card. Ademais, compete também ao líder acompanhar e orientar seus subordinados no alcance destes objetivos.

Conclusão

Realizar a gestão de carreiras exige uma visão estratégica do gestor: ele deve encontrar o equilíbrio entre o desafio e a motivação (impulsionando o colaborador ao seu desenvolvimento nas complexidades das tarefas) e entre a objetividade e subjetividade nos sistemas de avaliação; cabe ao gestor sincronizar os critérios de avaliação com os valores e metas institucionais para somar forças no plano estratégico; compete ainda a adoção de um sistema de avaliação fidedigno e legitimado pelos avaliados no intuito de propiciar a satisfação do empregado. Essa tarefa desafiadora reforça ainda mais a ação estratégica da gestão de pessoas no direcionamento da organização.



REFERENCIAS:

LONDON, M.; STUMPF, S. A.  Managging Careers. United States of America: AddisonWesley Publishing Company, 1982.


BOTERF, Guy Le. Desenvolvendo a competência dos profissionais. 3. ed. Porto Alegre : Bookman,
2003.








sábado, 28 de janeiro de 2012




Aos poucos fui percebendo que as coisas que dizia eram incompatíveis com suas atitudes. Não foi fácil. Demorou um pouco para que eu começasse a desconfiar dessa incoerência. Ele negava suas origens. Apontava os erros da sua família, sobressaía os defeitos de forma tão agressiva que era impossível não comprar aquela conversa.

Claro! Pintou o diabo: a mãe era uma louca materialista, avessa ao amor e favorável à riqueza. O pai um galinha de quinta que abandonou a família e nunca assumiu ninguém, mas fez outros 6 filhos em mulheres diferentes. Os irmãos continuaram a perpetuar o nome da tradicionalíssima família ao se casarem com mulheres “novas ricas”, que adicionaram o nome Vilaça para entrar na hight society e se tornarem nobres de toga. O importante era a associação do nome a riqueza. Quem iria discordar que essa família estava desestruturada? Ele enxergava tudo isso e demonstrava sua aversão a essa estrutura de valores que o cercava. E eu pensava: “que bom que ele é diferente. Percebe isso tudo na família e quer construir algo melhor para si.” Acho que estava errada.

Não acredito no determinismo sociológico. Acredito que somos agentes de mudanças. Mas também sei que ficar inerte e “deixar a vida levar” é algo de uma facilidade extrema. Poucos têm a coragem de reagir. Era muito improvável ele não ter alguns respingos desse ambiente, afinal ele foi criado nisso! Deve ter concebido a imagem materna e paterna muito diferente da minha concepção. Dificilmente teve exemplos de valores de ética, humildade e coletividade na infância. Talvez na adolescência tenha adquirido a habilidade de abstração necessária para a elaboração de um pensamento crítico e ter iniciado um possível processo de ressignificação da sua vida. Mas durante a infância foi tábula rasa imersa em um ambiente favorável a experiências distorcidas. Impossível ser diferente! E acho que constatei isso...

Talvez mais difícil do que ser deixada e descobrir que seu amor não existe. O que você amou foi, na realidade, uma ilusão. Hoje olho para ele e pergunto: “onde está o meu amor? Não é você...” como pude passar um ano ao lado de alguém que hoje não reconheço? Que sensação estranha, bizarra! Olhar para o homem que te beijou todos os dias e descobrir que aquele beijo não provoca mais nenhuma sensação. Não sinto raiva ou ódio. Às vezes parece pena, mas também não é. Chega próximo a indiferença, mas existe uma vibração angustiante que descaracteriza o indiferente. Realmente não sei o que é.

Enfim, chegou a hora. É o momento de termos uma conversa madura, transparente, definitiva. Preciso dizê-lo que não há mais amor quando não há mais admiração. Deixei de admirá-lo por enxergá-lo de uma forma muito diferente do que aquilo que me encantou. Não quero fazê-lo sofrer: preciso ser polida o suficiente para dizer a minha verdade sem causar dor (nem em mim, nem nele). É preciso um pouco de coragem...

“Henrique, a minha vida mudou. Estou com novos planos e novas perspectivas na minha carreira. Deixei o trabalho no hospital para me dedicar aos estudos para concurso. Essa é uma jornada que preciso caminhar só. Quero que você entenda que você não tem culpa disso. Eu gosto muito de você. Mas acho que nesse momento preciso me concentrar para essa mudança. Preciso de tempo e muita dedicação nos estudos. Não queria ver nossa relação ruir em brigas e desavenças. Por isso pensei em preservá-la. Deixaremos apenas momentos felizes em nossa história. Isso talvez seja o suficiente para resgatá-la no futuro. Mais uma vez conto com seu apoio. Abraços...”



Existia um vazio.Era um sentimento oco, desprovido de sustância. Faltava o calor, a intensidade, a entrega, dignos dos apaixonados. Talvez por não se permitir iludir não tenha permitido se apaixonar. Será que realmente é necessário o conteúdo da ilusão para que exista a paixão? Paixão é sofrimento. Acho que descobriu quanta falta fazia esse sofrimento...

O fato de ter expurgado a paixão de sua essência a fez mais constante. Era difícil vê-la chorar, se desequilibrar, e também era difícil a ver plena, satisfeita, em êxtase. Vivia numa constante quase melancólica, onde quase nada a afetava, quase nada admirava. Apenas ele despertava um interesse... Queria dizer uma admiração, mas ela continha tanto seus ímpetos que eu nem sei o nome que se dá.

Se fosse comigo, não teria dúvidas em me entregar... Claro! Se vai dar certo ou não, é outra coisa. Permitiria me apaixonar novamente, andar no shopping de mãos dadas, ir ao cinema, conhecer família e amigos, descobrir que ele ronca, brigar pelo canal da televisão, me chatear imaginando que ele não gosta mais de mim, depois receber um beijo bem gostoso e ouvir que “eu estou viajando!”. Trocar carinhos, conversar por olhares, permitir uma intimidade única... Como é bom estar apaixonada! Mas ela fugia disso. O que viveu no passado não justifica, pois não se pode dizer que sofreu por amor. Teve algumas decepções, algumas grandes decepções, mas poucas. Talvez suficientes...

O fato é que ela queria, mas não iria comprar. Não fazia sentido manter essa relação estéril. Soube como afastá-lo de si. Aos poucos ele deixou de participar de sua vida. Aos poucos ela se afastou. Agora começava a luta para afastá-lo dos seus pensamentos. Sabia como afastar da sua presença, mas não sabia como esquecê-lo. Depois ela pensa nisso... Está na hora de começar a reunião.

domingo, 9 de outubro de 2011

Condição Humana




Preso em mim. Dentro de uma cela podre, fétida, úmida e fria. Diante do escuro, muito escuro, a única visão que eu tinha era de mim mesmo. Estava sentado no chão. Encontrava um resquício de conforto abraçando minhas cansadas pernas, mais pelos do que pernas. Minhas barbas arranhavam suavemente meus joelhos sujos. As vezes esfregava fortemente os dedos contra a testa e os olhos, numa angústia descontroladamente presente. Era capaz de arrancar um dos calos das mãos com as unhas. O meu corpo nunca se fez tão presente como naquele momento: era apenas ele que eu sentia. Alias, ele era a primeira e ultima coisa que eu sentia. Apesar de estar preso, estava longe. Minha mente passeava por todos os lugares que vivi nestes últimos dois anos.
O medo se faz presente, mas o que mais me espanta é a culpa. Não era por acaso que eu estava ali. Mesmo tendo convicção da minha inocência, sei que contribui para esse fim. Era como se eu também concordasse em ter que sofrer essa punição como esperança corretiva da minha condição.
Com minha anuência, resolvi enfrentar a situação de temor e culpa. Não queria viver isso, sentir essa dor, mas era necessária. Parecia o fim. Realmente estava chegando ao fim. Sei que terei que ficar nessa cela por um bom tempo e apenas eu concederei minha liberdade. É hora de calar-se.

sábado, 30 de abril de 2011

Síndrome da Flexibilização de Valores



Tudo começou com uma simples observação: ou eu o tempo estava me deixando ainda mais careta, old, quadrada, ou a juventude estava flexibilizando cada vez mais os valores e conceitos. Percebi um conjunto de sinais apresentados pelos jovens que me induziriam a acreditar na segunda hipótese:

Redução de satisfações à sociedade
Priorizar questões individuais
Relativização dos julgamentos (certo ou errado)
Grande elevação no número de relacionamentos “abertos”
Pouca importância com os conflitos do outro
Diminuição do apego
Comportamentos frios e superficiais
Maior importância para os fins do que para os meios
Dificuldade com a estabilidade
Influenciáveis
Relações instantâneas, intensas e descartáveis
Facilidade de se reconfigurar


Síndrome é o conjunto de sintomas e sinais que definem uma mesma patologia. A flexibilização de valores é a conseqüência mais visível para a acumulação de todos os sintomas acima apontados: os valores não são mais estanques, ajustados, definidos em si mesmos; eles são fluidos, misturados e relativizados. Mês passado aquela dúvida que citei no início deixou de existir: a síndrome da flexibilização de valores é real. Sabe o pior? Não é privativo dos jovens, mas sim da sociedade.


Hoje somos engolidos pelo sistema: trabalhamos muito para consumir aquilo que nos fazem acreditar que é uma necessidade. A mudança é constante. O tempo e o espaço foram reduzidos com a velocidade da internet e da comunicação on-line. A adaptação, que sempre foi marca da evolução da espécie, passou a ser exigida cada vez mais devido às inúmeras e intensas mudanças. Estamos imersos e regulados por aquilo que Max Weber conceituou como racionalidade instrumental. Entende-se por esta razão aquela cuja “ação que se baseia no cálculo, na adequação de meios e fins, procurando obter com um mínimo de dispêndios um máximo de efeitos desejados, evitando-se ou minimizando-se todos os efeitos colaterais indesejados.” (FREITAG, 1994, p.90). Diante disso percebemos que a grande conseqüência dessa racionalidade instrumental aliada à redução do tempo e espaço do mundo moderno foi a perda da autonomia do indivíduo. O que isso quer dizer? Que os indivíduos passaram a ser comandados pelo sistema em toda sua inteireza. Ingenuidade acreditar que a razão instrumental regularia apenas as relações trabalhistas: ela se expande para as relações sociais.

“Você viu como a nossa arma estava afiadinha? Você viu o estrago que ela fez?” Essa foi a constatação de um dos suspeitos de ter vendido a arma utilizada por Wellington Menezes de Oliveira, responsável pelo massacre na Escola Municipal Tasso da Silveira, no Rio de Janeiro. O cenário de dor e sofrimento foi irrelevante diante da eficácia do produto vendido pelo sujeito. Essa razão que norteia essa criatura é a mesma que explica as corrupções, assassinatos, além de pequenos atos de um cidadão tido como comum. Não quero dizer que qualquer cidadão seria capaz de emitir esse comentário, o quero expor é que esse pensamento é resultado da falta de autonomia a qual falei anteriormente.

A constante mudança, intensa rapidez com que as informações, padrões, sistemas e processos são reformulados, substituídos, descartados e reconstruídos permite o afrouxamento de algumas estruturas do indivíduo. Zigmunt Bauman utilizou em seu livro Modernidade Líquida a metáfora da “fluidez” ou “liquidez” para caracterizar a contemporaneidade. É justamente essa fluidez que permite a reorganização das moléculas para a adequação ao espaço a ser ocupado.

Antigamente poderíamos caracterizar a sociedade como resistente, onde o sagrado era evidenciado, havia maior valorização do passado, das crenças e das tradições. As mudanças sempre estiveram presentes e demandavam a adaptabilidade e transformação do indivíduo, porém como a sua constituição era sólida, essa transformação constituía-se em lapidações, na qual se preservava a essência indivíduo, sendo impossível acoplar um quadrado num espaço circular. As mudanças continuaram e nesse contexto, os primeiros sólidos começaram a se derreter para permitir uma melhor adaptação. Bauman continua seus estudos constatando que a modernidade fluida repercutiu numa grande alteração na condição humana com tendência de desenvolvimento nos conceitos básicos da emancipação, individualidade, tempo/espaço, trabalho e a comunidade. O tempo e o espaço são extremamente reduzidos. A modernidade concentra esforços para alcançar rapidamente um objetivo que se distancia cada vez que se aproxima. O homem moderno é aquele cuja estagnação é impensável. Nas organizações, nos deparamos com a geração Y, folgados, distraídos, superficiais e insubordinados. Não “vestem a camisa da empresa”, pois não tem compromisso de fidelidade e lealdade a ela – “vou para quem me der mais”. É necessário estar sempre à frente, o que inviabiliza uma construção sólida para sustentar todas essas contínuas e repentinas transformações. A identidade é desprezada, pois não existe identidade essencial na liquidez: a “identidade” na liquidez depende do ambiente. Qual o reflexo dessa instabilidade da modernidade na construção do indivíduo? A instabilidade do próprio indivíduo.

Como posso manter a integridade dos valores numa modernidade líquida? Além disso, como posso construir valores, conceitos e até mesmo uma identidade num tempo de fluidez da sociedade? Se a construção do indivíduo está sendo afetada com essa mudança social, imagina as relações sociais: descomprometidas, desacreditadas, descredibilizadas. A frieza e desumanidade da frase emitida pelo suspeito de vender a arma para o assassino do Realengo reflete seu descompromisso e insensibilidade com o coletivo. O que podemos fazer para evitar a síndrome de flexibilização de valores decorrente da racionalidade instrumental? Discussão para o próximo post.




FREITAG, Bárbara. A teoria crítica: ontem e hoje, São Paulo: Brasiliense, 1994


BAUMAN, Zigmunt. Modernidade Líquida. São Paulo: Zahar, 2001.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Eu e meu eu-lírico: Juventude e boa vontade

Eu e meu eu-lírico: Juventude e boa vontade: "É inevitável falar sobre os jovens de hoje em dia sem fazer uma comparação com a geração anterior. Costumo ouvir que a juventude atual é aco..."

domingo, 20 de março de 2011

Dia da Mulher


Dia Internacional da Mulher! Minha mente já está condicionada a pensar na figura delicada, meiga e linda, sempre ao lado de uma bela rosa vermelha. Uma poesia dedicada à beleza da mulher, ao equilíbrio entre a sutileza e força. Uma declaração de amor do marido, reconhecendo a dedicação da sua esposa. Uma mensagem empresarial reconhecendo o crescimento das mulheres (em números e resultados) na organização. Sugestão para presentes: flores! Enfim, clichês.

Os clichês têm seu lugar. Primeiro porque, se virou clichê, é porque houve repetições. Se houve repetições é porque houve aceitações. Portanto, os clichês, em algum momento, satisfizeram a maioria. O problema do clichê é a previsibilidade... Resultado? Elas cansaram de serem homenageadas com esses clichês.

Hoje elas são mais do que independentes, ousadas, inteligentes, guerreiras. As mulheres de hoje: “pães” (pai+mãe); “solteiras sim, sozinhas nunca”(mulher melancia); “mulher não trai, mulher se vinga” (aviões do forro); “arranjar um amor só pra me distrair” (Alcione); “quantos homens me amaram, bem mais e melhor que você” (Chico); “contornei” (Márcia, Zorra Total); “Sexo sem compromisso (filme que preciso assistir!)”. Vamos “retirar todo o lençol” e mostrar que elas não precisam mais só da auto-afirmação do equilíbrio: esposa-mãe-trabalhadora. É preciso auto-afirmar a relação da mulher com sua sexualidade. Sem pudores, vergonha ou preconceito.

Hoje elas são gays, bi e mães. Optam pela produção independente ou por não terem filhos. Por não casar ou por trair. Têm vários parceiros ao longo da vida. Beijam amigos e amigas (e às vezes transam), sem compromisso. Realizam suas fantasias. Partem para a conquista! Tomam atitude. Dão na primeira noite. Por favor, não vamos entrar no mérito da promiscuidade. O discurso gira em torno da flexibilização dos pré-conceitos do século passado. Àquele que julgar uma mulher como vadia por ter transado na primeira noite é tido como, no mínimo, limitado (que o diga Diogo do BBB11). Vamos tomar por referência aquela mulher linda, meiga, educada, jovem e independente: ela pode fazer tudo e manter sua saúde sexual e sua idoneidade. Hoje, elas podem!

A história começou com os clichês, onde a homenagem das mulheres era regada à flores, poesias e declarações. O que fazer para sair desses clichês? Continuam as flores, poesias e declarações – pois elas adoram. Elas querem também ser reconhecidas pelo lado loba. Está na hora de acabar com o tabu que é a libido feminina. Quebrar esses limites machistas já rachados pela ascensão financeira das mulheres. Homens: presenteie-as com lingeries e brinquedos; músculos e inteligência; preliminares e rapidinhas; lealdade e virilidade. Cuidem-se e compareçam com qualidade, afinal elas querem, merecem e terão (estando vocês presentes ou não).

sábado, 19 de março de 2011

Comecei faltando dois dias na semana. Depois uma semana. Depois um mês. Já são três meses sem “academia”! O pior é isso. Já sinto os sinais da ausência dos exercícios. Pensamento lento, sensação de ultrapassada, desatualizada, restrita e o pior, vazia. Agora é recomeçar. Preciso enfrentar novamente o recomeço. Tive que me forçar a dar o primeiro passo, publicando esse desabafo no blog (nada a ver), mas tudo bem.

Em breve novos conteúdos.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Será que faz sol?

Será que faz sol?
Quero sair de novo com ela
Vê-la de biquíni será o máximo e George Harrison no carro, certeiro!
Será que faz sol?
Eu não me importo, mas e se ela der essa desculpa?
Será que chove?
Poderíamos ficar na cama, fazendo amor, ouvindo música, jogando conversa fora e bebendo vinho pra esquentar (mais?!)
Será que ela topa?
Não..., dirá que não me conhece bem, melhor a praia!
Será que faz sol?
Vou olhar no site, mas pra garantir, e como sou de Ogum, pedirei a ele que fale com Oiá pra não mandar a tempestade
Não quero ela com medo...
Desejo-a linda, e de biquíni!

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Vai que Neva?



Vai que neva?
Substituir sua irmã
Numa capacitação
Num domingo de manhã
“Qual a nova discussão?”

Vai que neva?
Vou daqui a pé
Para o Bonfim ver a lavagem
Sem nenhuma fé
Terei alguma miragem?

Vai que neva?
Marcar um encontro chato
No dia pré-menstrual
Com um pé no saco chato
Nada será natural

Vai que neva?
Ir pra o estádio
Ver dois times de nem sei o quê
Com dois amigos
Apenas pra ter o que dizer

Vai que neva?
Um biquíni vou levar
Pra um encontro das garotas
Muita Ice e pouco War
Quem será a mais escrota?

E eu?


Finalmente o grande dia havia chegado! Juro que tentei sentir a felicidade que eu demonstrava, mas o que realmente me dominava era um vazio muito angustiante. Acordei as 05:00h e a primeira coisa que fiz foi me despedir da minha cama de solteiro, da casa dos meus pais, do meu quarto... Durante o banho, ao invés de pensar em como seria meu dia de noiva, o meu pensamento vagava pelas lembranças da minha infância, pelos namoradinhos de adolescência, pela poucas noites de amor com meus poucos homens, pelas inúmeras farras com minhas amigas, pelas incontáveis noites varadas nas boites, pelos dias de trabalho de virote... As lágrimas se misturavam com a água do chuveiro. Acho que foi importante eu chorar pois aliviou minha angústia antes de encarar meus pais, já na sala, aguardando minha saída. Recebi-os com um grande abraço e forçando muitos sorrisos. Não consegui evitar o choro – nem o meu nem o de minha mãe – mas tenho certeza de que os convenci de que este era o dia mais feliz da minha vida, mesmo eu tendo certeza que não.

Foram 11 meses de um relacionamento intenso, mas muito oscilante. Talvez por termos uma diferença de 13 anos, nosso relacionamento foi marcado por muitas incompreensões. Brigávamos muito, mas, em compensação, tínhamos um encaixe perfeito. Éramos excelentes amantes! Mas o maior problema para mim não eram os momentos de vale: eu não conseguia esquecer o Juca. E quer mais uma e a pior revelação: até hoje eu não consegui esquecer... Mas não posso chorar o leite derramado. Há três meses descobri que uma pessoinha estava sendo construída dentro de mim. Imagina! Eu, com 22 anos, sem qualquer experiência, em breve seria mamãe. Não sei fazer um ovo cozido! Mas tudo bem... Qual a mulher que estava preparada pra ser mãe? Creio que eu tenha ficado feliz com a notícia da gravidez, mas junto com ela vinha o problema: o pai. Não tinha outra opção que não o casamento.

Pense numa alegria abestalhada, foi o Luciano quando soube que seria pai. Imediatamente ele já pensou em reformar o quarto da TV para o bebê. Logo depois, decidiu a igreja que nos casaríamos. Ele realmente gostava de mim, apesar de já ter aprontado muito. Mas eu tinha certeza que não correspondia àquele sentimento. O Juca sempre esteve presente nos meus pensamentos, principalmente quando começamos a trabalhar na mesma empresa nesse ultimo semestre...

Fui para o meu dia de noiva. Num intervalo entre massagens e banhos relaxantes eu choramingava sozinha (celular nem pensar). Durante a limpeza de pele, com os olhos fechados, pude perceber na mudança que estava prestes a ocorrer: eu iria constituir uma família com um homem que não amo. Neste momento já não tinha mais lágrimas pra chorar – e também os chás tranqüilizantes já estavam fazendo efeito. Mas mesmo não existindo lágrimas, uma tristeza profunda me fazia suspirar e borbulhar inúmeras dúvidas: será que eu amarei o Lu? Será que eu serei feliz? Será que o Juca sairá definitivamente da minha vida? Será que eu quero que ele realmente saia? Não havia espaço para eu pensar em meu bebê...

De repente, aqui estou. Linda. Linda, como nunca me senti antes. Dentro desse carro (que tem tanta história pra contar), sentindo o frio do ar condicionado ressecar meus olhos e ouvindo o som do motor se confundir com os sussurros dos convidados que estão fora da igreja. Meu pai fala algumas palavras que eu não consigo compreender. Não estou prestando atenção. Se ele imaginasse que minha carcaça é o oposto do que sinto, com certeza me levaria agora para casa. Ele desce do carro e abre a porta: “- vamos, minha filha.” Calma! Muita calma! Suspiro fundo e incorporo a personagem: estou realizando meu grande sonho...

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Apenas mais uma sobre perdas...



É muito fácil falar sobre nossos amigos. Amigo é aquele que escolhemos para compartilhar nossos momentos, nossa história. Falar de um amigo pode até parecer difícil, mas com certeza a dificuldade está em encontrar palavras que consigam expressar o sentimento que nos envolve. Existem músicas, livros, poesias que exaltam essa relação tão nobre e fundamental que é a amizade. Difícil é a gente falar do sentimento de ex-amigo.

Acho que nossa primeira reação quando percebemos o distanciamento de um amigo é dizer que a culpa é dele. Mas comigo não foi assim. Percebi que ela estava mais distante de mim e busquei, mais uma vez, encontrar em mim o motivo desse distanciamento. Só que ao invés de ir conversar, o que já ocorreu outras vezes, resolvi encontrar essa resposta comigo mesma, sem compartilhar com ninguém, nem mesmo com ela. O tempo passou, passou, passou e hoje somos meras conhecidas que nos falamos por obrigação. O que levou a isso? O que pode fazer uma amizade definhar? O que levaria uma de nós a se afastar da outra? Adianto logo que nada, nadinha aconteceu. O que aconteceu – e disso eu tenho certeza – foi uma mudança de sentimento inexplicável (que vou tentar explicar).

Certa vez em algum texto de filosofia, li que somos afetados por aquilo que admiramos, como se a admiração fosse algo primordial e necessário para destacar alguma figura do fundo. Portanto, tudo que temos interesse, gostamos, amamos nessa vida, passou primeiro pelo “status” de admirado. A partir dessa viagem, posso garantir: deixei de ser admirada (e talvez de admirar). Esse foi o resultado dessa mudança de sentimento. Não sei quais as etapas que o meu amor passou para chegar ao marco zero (sou incompetente e suspeita para isso, afinal de contas minha versão é enviesada), mas o fato é que uma flor tão bonita e vistosa morreu em agonia.

Entristece-me muito descobrir que era algo superficial. Juro que acreditei que a raiz era muito mais profunda. Realmente pensei que essa flor era forte o suficiente para resistir às nossas vaidades e os ímpetos que surpreendem nosso ego (que muitas vezes julgamos não os ter). Jamais julguei que era algo unilateral, mas às vezes tenho a sensação de que supervalorizei ou até mesmo sobrecarreguei algo que ainda pertencia à categoria do normal. De qualquer forma, percebo que a ausência dela me angustia muito. Assumo que tenho medo de reatar nosso relacionamento, mas não tenho como disfarçar a saudades que sinto da nossa cumplicidade, das conversas, dos conselhos. Sinto falta de admirá-la, mas acabo agindo da mesma forma que ela, com indiferença... Não para revidar, mas uma opção espontânea. Isso me preocupa muito!

Isso me faz entrar em contato com um “eu” que geralmente tentamos esconder. O lado B. Como posso ser tão mesquinha, cruel, infantil e imatura ao ponto de permitir tratar com indiferença alguém que compartilhou bons momentos comigo? Sabe o que é isso? Vaidade! Orgulho! E olhe que nem sou orgulhosa. Percebo o quanto tenho que evoluir. Vejo o quanto devo me lapidar para me tornar uma pessoa mais digna de graças. Mas sabe, diante desse lodo repugnante, confesso uma coisa: jamais deixarei de cuidar dela. No que for possível e ao meu alcance, resguardarei a sua integridade.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Crônica de uma perda




Como expressar em palavras um vazio tão profundo que nem mesmo o silêncio dá conta de representar? Nem mesmo a escuridão... o vácuo, talvez. É um nada ensimesmado, cuja a realidade não faz sentido algum. Acordar ou dormir, comer, caminhar é quase que uma obrigação, não pela ausência de vontade de fazer, mas de não encontrar sentido algum em fazer... ou não fazer. Como dói perder quem amamos. Fiquei sem referência, sem um norte, sem um farol, um porto, nada. Apenas eu em um barco perdido na imensidão do oceano, sem sequer o céu, quiçá a lua ou as estrelas; apenas a escuridão e o balanço nauseante do meu eu.

O que faço agora? Nem tenho estímulos que me façam pensar no amanhã... Escrevo apenas como um desabafo. Meu Deus, que sensação terrível de impotência diante desse fim que nunca acabou! A primeira sensação que tive foi desespero. Aquela angústia terrível, aquele nó na garganta, uma palpitação interminável, lágrimas e gritos incessantes. Tudo isso girava em torno da minha inaceitação daquela morte. Depois veio a raiva. Sentia muita raiva daquele irresponsável embriagado que o atropelou. Jurei que faria justiça com minhas próprias mãos. Mas esse sentimento de raiva não ocupou o lugar do desespero; foi uma sobreposição. Sentia as duas coisas ao mesmo tempo. Acho que só passei por essa fase por causa do Rivo.

Hoje a sensação é estranha. Continuo sentindo uma angústia melancólica, mas não consigo ver sentido em nada na minha vida. Aliás, para que fazemos isso tudo se também iremos morrer? Para que estudar, trabalhar, crescer, procriar? Quando me tornei mãe, tive a sensação que cheguei à plenitude: o sentido da vida é se doar aos filhos. Senti um amor inigualável, incondicional, gigantesco por aquele ser que saía de dentro de mim.

Mas a vida me ensinou que para todo Yang existe um Yin e experimentei as trevas (e acho que nunca sairei daqui). A sensação que tenho é que de nada vale construir, dar um passo, agir, pois tudo vai acabar, vai apodrecer. Talvez nunca consiga fazer entender esse meu vazio. Nada é análogo a esse sentimento. Não é só saudade, só luto, só tristeza, só impotência, só angústia, só desamparo, só desespero, só desilusão, só desesperança, . É uma sopa de sensações que me desconecta da realidade e me introspecta. Nunca mais serei a mesma. Nunca mais enxergarei as cores do mundo, os cheiros, os sabores.

Mais uma vez as lágrimas rolam rosto a baixo. Mais uma vez me questiono: Por que, meu Deus, por que tirou meu pequeno dos meus braços? Por que achou que eu teria forças para superar a perda de meu único filho? Sem respostas e já exausta dessa tortura, pego meu comprimido e vou dormir.

domingo, 19 de setembro de 2010

Sobre o Normal e o Patológico



Vamos para mais um assunto “psi” do nosso dia-a-dia. Semana passada estava lendo uns textos que abordavam sobre a evolução do DSM (Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais) e suas principais modificações. Algumas questões são bem interessantes como a grande influência de Freud para o DSM I ou a preocupação em romper com referenciais teóricos no DSM III. Entretanto, uma questão me chamou ainda mais atenção: o aumento exponencial do número de categorias – 180 categorias no DSM II, 295 no DSM III e 350 no DSM IV. O que isso quer dizer?

Quer dizer que os cientistas descobriram novas doenças? Que surgiram novas perturbações? Ou que se rotulou como patologia aquilo que antes era considerado normal?

Posso até ter a sensação de que a sociedade adoeceu um pouco, que as famílias enfraqueceram, que o amor se fragmentou, que o profundo se tornou raso e que o tempo é tão escasso que precisamos nos sobrepor no espaço para darmos conta do que nos é pedido. Mas será que isso alavancaria o número de doenças? Não temos como negar que algumas patologias surgiram, como por exemplo, a anorexia, bulimia, síndrome do pânico, etc. Mas até que ponto o Menino Maluquinho não é hiperativo? Dr. House não sofre da Síndrome do Mau-humor? Macunaíma não é um perverso? Dom Casmurro era depressivo? Será que realmente é preciso o metilfenidato ou a fluoxetina para equalizar o que está destoando? Será que não estamos encurtando o espaço do normal e, consequentemente, ampliando o do patológico? Acho que fica claro a influência da indústria farmacêutica nessa atual classificação.

Se formos atribuir culpas a isso, podemos também incluir a influência midiática no desenho do ideal inalcançável – inclusive de saúde – e também o adoecimento da sociedade, como disse antes. Mas não é essa a intenção. Acho que devemos recuperar mais a nossa “ânima”, aceitar nossas oscilações, viver nossas angústias, permitir que as lágrimas caiam, que as gargalhadas escapem... Quem sou eu para falar de emoções, mas sei que elas são assim: montanha russa, terremoto, adrenalina. Intensidade! Será que estamos deixando de ser mais intensos? Será que estamos nos desumanizando?
As coisas estão tão superficiais, tão efêmeras que o apego é algo quase que impossível de se estabelecer. Também percebi que as pessoas andam meio carentes (outro dia num barzinho uma garota, que ninguém conhecia, contou todos os problemas em menos de 20 minutos, falando do pai, irmão, terapias, etc.). Pode ser que essa carência é pela falta do apego e que o apego é pela falta da intensidade. Não tenho como estabelecer esse nexo causal. O que sinto é que temos que recuperar nosso contato, nosso calor, permitir que nossas vísceras se expressem. Temos que aceitar que nossos sentimentos têm amplitudes e freqüências e que sentimentos lineares e constantes é que deveriam ser patologizados. Faz parte de ser humano vivenciar a intensidade das emoções, perder o controle, deslizar, gritar, extrapolar. Acho que precisamos nos permitir sentir...

Que ninguém pense que esse meu discurso é contra a psiquiatria. Jamais mancharia essa área deslumbrante da medicina. Minhas palavras são apenas para trazer para nossa realidade os inúmeros discursos que estão ocorrendo sobre essa temática.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A Caixa de Pandora




O titã Prometeu presenteou os homens com o fogo para que dominassem a natureza. Zeus, o chefão dos deuses do Olimpo, que havia proibido a entrega desse dom à humanidade, arquitetou sua vingança criando Pandora, a primeira mulher a habitar o planeta. Por ser sua primogênita, Pandora recebeu os melhores e mais perfeitos atributos dos deuses. Recebeu de um a graça, de outro a beleza, de outros a persuasão, a inteligência, a paciência, a meiguice, a habilidade na dança e nos trabalhos manuais. Hermes, porém pôs no seu coração a traição e a mentira.

Prometeu foi condenado por Zeus a ficar 30.000 anos acorrentado no Monte Cáucaso, tendo seu fígado comido pelo abutre Éton todos os dias. Mas, antes disso e diante da possibilidade de outras vinganças de Zeus, Prometeu preveniu seu irmão, Epimeteu, que recusasse todo presente vindo do deus dos deuses. Entretanto, diante de toda a perfeição de Pandora, Epimeteu ignorou os conselhos do irmão e aceitou Pandora como esposa.

Epimeteu carregava consigo uma caixa recebida de presente pelos deuses que continha um arsenal de desgraças para o homem, como a discórdia, a guerra e todas as doenças do corpo e da mente mais um único dom: a esperança. Apesar de não revelar o conteúdo, Epimeteu pediu à esposa que não abrisse aquela caixa sob qualquer circunstância.

Entretanto, Pandora desobedeceu seu marido e abriu a caixa. Segundo Hesíodo, o poeta camponês, Pandora teria aberto a caixa levada pela curiosidade, de onde saem todas as desgraças e calamidades para os homens que viviam tranqüilos e felizes até então. Ao fechá-la, rapidamente, conseguiu prender em seu interior a esperança que por séculos ficaria encerrada como uma promessa de retorno aos felizes e ditosos tempos da infância da espécie humana sobre a Terra.




Conseguimos perceber com bastante clareza a relação entre a mulher e a beleza, a sensualidade, a dissimulação e a destruição. A Bíblia também traz essa vinculação ao atribuir à Eva a responsabilidade de disseminar o mal na Terra. Espanta perceber que a razão da minha concepção está na sensualidade e na destruição. E ainda temos esperança em destruir ou ao menos reduzir o machismo que nos impõe à submissão e nos resume à meros recipientes reprodutores! Quer dizer então que fui eu que mordi a maçã e condenei o pobre coitado do Adão, tão puro e obediente, à expulsão do Paraíso; eu que abri a temível caixa, traindo a confiança do meu grande amor e libertando o mal para todos os inocentes? Como retirar esse rótulo das mulheres se sua criação foi para um fim triste? Se fomos nós as culpadas pelas desgraças da humanidade?

Para não mergulhar (ainda mais) num discurso feminista, vamos fazer outra leitura sobre o mito de Pandora. Alguns percebem que a caixa representa o desconhecido e que a curiosidade humana em responder às obscuridades do desconhecido é que provoca o mal e a destruição. Acho que não consegui fazer essa leitura, afinal o conhecimento – ou a ciência – proporcionou inúmeros alívios às mazelas oriundas da caixa de pandora. Então vamos voltar ao meu discurso rebelde.

Por que não conceber o mito de Pandora como representativo de uma grande injustiça? Vamos por partes. Zeus, o poderoso chefão, concebe sua primogênita impregnado de raiva e vingança. Que pai é esse que agrega atributos de perfeição a sua filha pensando em seduzir um homem para vingá-lo? Animalesco! O pior é que a vingança já havia sido concretizada com a punição sadista dada a Prometeu.

Ok. Outra parte. A coitada da Pandora se casa com Epimeteu e tinham tudo para viver felizes para sempre, se não fosse a maldita caixa. Nem vou entrar no mérito “por que Epimeteu não contou o que havia dentro da caixa?” porque existem várias versões para o mito. Alguns dizem que foi Pandora quem trouxe a caixa e abriu na frente de Epimeteu; outros que ela trouxe e ele abriu... Enfim, a próxima parte é: por que Zeus não espalhou o mal na Terra já que ele era o todo poderoso? Independente da versão, a culpa foi da coitada da Pandora. Em qualquer uma das hipóteses ela não sabia o que havia na caixa e esta foi criada como uma armadilha! Ou seja, a caixa não foi feita para realmente guardar o mal, mas para ser aberta. O pior é que ou foi Pandora quem abriu, ou a caixa era dela ou as duas hipóteses. Quer dizer: Epimeteu "tá de boa" nisso tudo, já que: a) se a caixa era dele, ela desobedeceu suas ordens de não abrir (mulher enxerida!); b) se a caixa era dela e ele abriu, ela já trouxe consigo nessa intenção (mulher calculista, fria, falsa!); c) se a caixa era dela e ela mesma abriu... (tem que queimar no inferno!). Sempre a condenação recai à Pandora?

Ela foi usada! Ferramenta, objeto manipulado por um aristocrata perverso. Usada para satisfazer os ímpetos de um animal e punida por ser o lado mais fraco da corda. Rotulada pela sua desobediência ou impulsividade. Todos abstraíram as inúmeras qualidades (todas dadas por outros deuses) de Pandora para estereotiparem como a “causadora do mal”. Chega de palhaçada!

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Conto I

- Pai, por que você tem que voltar pra casa?
- Já está na minha hora e já brincamos demais. Além disso você pode pegar um resfriado.
- Não acho que brincamos demais. Queria ter mais tempo com você. E o que tem se eu pegar um resfriado? Não quero perder essa oportunidade de passar mais um tempo com o senhor por causa de um resfriado que nem sei se vai acontecer.
- Meu filho. Sinto muitas saudades de você, mas existem coisas na vida que só compreendemos depois dela. É claro que não gostaria de me afastar de vocês, mas todos nós temos a nossa hora. Se pensarmos bem, não fomos tão penalizados, já que ainda podemos nos ver, não é verdade?
- Mas não quando eu quero. Sempre depende de sua vontade. Outro dia, pai, eu chorei muito numa discussão com a mamãe pois ela não queria me deixar sair para a formatura de uma colega. O meu choro não foi por não ter ido, pois nossa discussão me fez compreender que seria um pouco perigoso para mim, mas por não ter alguém para eu compartilhar essa minha angústia. Sei que se você tivesse presente eu teria ido e ela não ficaria tão preocupada. Me senti um injustiçado. Queria muito seu conforto naquela hora e você não apareceu. Por quê?
- Não significa que eu não apareci porque não quis. Aliás, neste momento eu percebi seu sofrimento, mas saiba que é o sofrimento que nos fortalece. Em muitos momentos da sua vida você se sentirá só e é nessas horas que você perceberá o quanto você é forte. Neste dia você chorou muito, mas seus momentos de reflexão permitiram algumas conclusões, dentre elas a de que sua mãe muitas vezes necessita mais da sua proteção do que você da dela. Isso é uma tendência que, com o tempo ficará muito mais nítido.
- Sim, mas eu queria que você me ajudasse... Eu queria a sua presença para me apoiar, me ajudar a conquistar minha independência, me orientar... Às vezes não consigo verbalizar todo esse terremoto dentro de mim, mas tudo isso me deixa muito triste.
- A vida é dura, meu filhinho, mas nem por isso menos bela. Sente-se aqui perto de mim. Temos que aproveitar o que ela tem de melhor a nos oferecer. Você deve aproveitar os beijos de sua mãe, os abraços dos seus avós, as risadas dos seus amigos. Deve crer em Deus, no seu destino e principalmente nas pessoas que gostam de você. Tudo virá no seu tempo: a sua independência, a sua segurança, as respostas para suas dúvidas.
- Pai, confesso que nas minhas rezas diárias nem sempre está presente minha crença no que estou orando. Sabe por quê? Do que adianta pedir pela saúde da minha família se quando for para adoecermos, adoeceremos pela vontade Dele? Tudo é pela vontade Dele e você me disse isso! Então, por que vou crer Nele se foi Ele quem tirou você de mim? Por que vou acreditar na bondade divina se eu perdi o que era mais importante na minha vida?
- Desculpas por repetir o que muita gente já deve ter dito a você, mas a vida é maravilhosa. Se déssemos o valor certo enquanto ainda temos juventude, com certeza as pessoas seriam mais felizes. O problema é que só damos o real valor às coisas ou quando perdemos ou quando já estamos bem velhinhos e aí já é tarde demais. Quero muito, meu filho, que você acredite na vontade Dele. Se você conseguir ter mais fé, terá mais sabedoria para compreender aquilo que nos parece incompreensível. Deus escreve certo por linhas certas, só que precisamos de maturidade para enxergarmos isso. Ele não me tirou da sua vida. Desde quando eu te concebi como filho e você como seu pai nos tornamos uno, inseparáveis. Nosso elo não se quebrou com minha partida e isso não é por causa da sua mediunidade. Mesmo àqueles que não conseguem enxergar espíritos, conseguem se manter próximos dos seus entes que já desincorporaram. E eles se confortam com isso, sabia? No sentimos muito melhor quando vocês se conformam com a nossa partida.
- Pai, nada disso me conforta. Só eu sei o vazio que levo comigo. Só eu sei como eu seria mais feliz se eu pudesse ter meu pai para me levar à escola, para me contar suas histórias, para me ensinar a dirigir, me ensinar a namorar. Só eu sei como me sinto só com essas mudanças no meu corpo, com essa insegurança sobre as meninas... Como posso conversar com a mamãe sobre a Julinha? Como posso dizer que já dei meu primeiro beijo e que tenho outros desejos? Isso tudo me angustia e às vezes me apavora! Por que eu fui alvo dessa injustiça? Eu merecia passar por isso? Eu merecia perder a proteção e o conforto do meu melhor amigo?
- Meu filho. Não duvide da bondade de Deus. Olhe para tudo ao seu redor e se pergunte: de onde vem essa natureza linda? Por que você se sente bem com essa paisagem esplendorosa, um pôr-do-sol no mar calmo dessa tarde de verão? Quem nos daria um mundo tão lindo e perfeito para morar senão alguém de uma bondade infinita?
- Mas pai, muito disso tudo a ciência já explica. Eu sei que a areia que estamos pisando são destroços das pedras, sei por que temos coqueiros ao invés de pinheiros, enfim, se o mundo foi feito para nos fazer bem, foi o acaso que o construiu assim, e não Deus.
- Então você acha que o acaso foi bondoso conosco? O acaso, o a evolução de Darwin, que fez o planeta harmônico, os animais e o homem com detalhes tão perfeitos? É por acaso que você pensa, se move, matem seu corpo em perfeito funcionamento, mesmo sabendo que ele tem tantas peças para darem errado? É o acaso que faz você me ver agora, conversar comigo, que permite dialogarmos de planos diferentes? Não consegue perceber que o que você chama de acaso pode ser visto como a vontade de Deus? Meu filho, com tanta racionalidade, quero que me explique como eu existo para você? Aliás, eu existo?
- Claro que sim. Existe e não é fruto da minha imaginação. Você existe para mim quase da mesma forma de quando ainda era vivo. A diferença é que não posso te ver sempre que quero.
- Então para os outros eu não existo, concorda? Se você contar para sua avó que conversa comigo ela poderá brigar com você e até achar que você está enlouquecendo! Ela estaria certa em afirmar que eu não existo apenas pelo fato de não ver? Estaria certa em desconfiar da sua palavra? Claro que não. Apenas pelo fato de eu não ser matéria, não implica que eu não exista, que eu seja nada. Veja que estou tentando mostrar que devemos crer naquilo que não podemos ver nem explicar. Devemos crer na existência e na bondade de Deus. Ele existe e apesar de não conseguir explicar, conseguimos senti-lo.
- Pai, onde está a bondade de Deus quando ele o tirou de mim? Qual e a parte boa dessa historia da sua partida? Alguém conseguiria ver bondade nas lágrimas da mamãe? No desespero da vovó? Na tristeza imensa do vovô? Não falo só do dia da sua desencarnação, mas até hoje o luto permanece. Nunca esqueceremos aquele domingo ensolarado. Jamais imaginaríamos que aquela saída rotineira para levar frutas para a vovó, às 7 da manha, resultaria naquele acidente. Só de falar eu já me emociono... Nunca mais fomos os mesmos. Onde está a presença de Deus neste momento?

(...)